skip to main |
skip to sidebar
A idéia que formei sobre a criatividade e sobre o processo criativo propriamente dito sempre me pareceu tão convincente que nunca tive grandes crises quanto às minhas pretensões literárias.
Escrevo porque e quando sinto que isso me será agradável, por quaisquer que sejam as razões. Mas, principalmente, escrevo quando sinto vontade (quase necessidade); pois quando há vontade de criar algo tudo pode se tornar interessante o bastante para se refletir, elaborar e escrever.
Geralmente esse anseio vem quando estou ou muito introspectiva ou muito atenta ao mundo exterior, ou ainda quando estou introspectiva E atenta ao mundo aqui fora de mim – uma raríssima conjunção de estados mentais, eu confesso...
Em todos os outros instantes, por mais que eu veja, ouça ou pense em algo super instigante, se não estou num writing-state não adianta, empaca, não consigo!, fica grotesco, indecifrável.
Entendam, não é só o tema, o porquê, o para quê; é o gosto e o gozo pelas palavras que vão vindo quase miticamente e aparecendo diante dos seus olhos, corpos belos, precisos para aquilo que você quer dizer do jeito que você quer dizer!
Você pode dizer que, no fundo no fundo eu só sou uma preguiçosa mesmo, uma acomodada que não se dá ao trabalho de buscar inspiração, entretanto não creio que isso seja um ponto relevante, afinal as minhas ditas pretensões não almejam nenhum reconhecimento além de uma esfera íntima, na maioria das vezes nem chegando a cruzar a fronteira Universo.Isapandora/Everything.Else.
Enfim, qual o sentido em me entediar forçando palavras que, para mim, apenas devem ser pelo prazer em ser?
Obviamente esse post começou como um desempacante qualquer para um blog esquecido dos deuses! Mas ainda assim feels great!, pegar no ar coisas sem nada com nada, e ver no que dá...
Sempre que vamos sair para uma viagem de carro em família minha mãe dá um jeito de ficar irritada com algo: ou estamos demorando em nos arrumar, ou ela se mete em uma discussão sobre a rota de viagem ou a disposição das malas no bagageiro com o meu pai, ou acha inconcebível que alguém não queira ir para onde ela quer ir, não sei! Acho que há alguma satisfação inconsciente em estar insatisfeita com algo...
Ultimamente um ponto-chave desta insatisfação é meu desempenho guiando o carro.
Existem coisas, certas habilidades, que você só adquire com a prática contínua.
Tricô, por exemplo, ou andar de bicicleta.
Acho que aprender a dirigir também se enquadra nesse grupo e minha mãe, desde que tenho carteira de motorista, justifica com isso o fato de não deixar que eu dirija o carro da família. Diz que a auto-escola não dá experiência e destreza suficiente.
Eu não nego a lógica dessa explicação, mas convenhamos que utilizar sempre essa desculpa só faz cair num ciclo sem fim: se não dirijo, não ganho experiência, cuja ausência é aquilo que me impede de dirigir.
Em suma, o desabafo deste texto em específico é minha indignação perante a confusão dos meus pais entre a minha confiança (aleluia, sou confiante com algo!) e imprudência.
Claro que o fato de eu ter sempre me mostrado uma pessoa prudente, pendendo às vezes para a insegurança mesmo, pode tornar implausível ou frágil diante deles essa segurança que já tenho com o volante (conquistada com algumas poucas oportunidades de viagens para visitar minha avó em outra cidade, em algumas das quais eu dirigi por rodovias federais e estaduais, inclusive com grande movimentação e em condições de chuva forte!).
Mas vamos direto à cena: estávamos na BR101, eu ia guiando enquanto minha mãe ia sentada – e remexendo-se – no banco de trás.
“Isadora, vai mais devagar!”
“Mãe, estou a 80 por hora...”
“Isadora, ultrapassa, mas já pega a pista da direita!”
“Mãe, eu já estou na pista da direita...”
Um pequeno adendo... Estávamos indo para Criciúma, e sempre nos perdemos quando vamos para Criciúma... Sempre, e o calor insuportável mais a característica (naquele momento inadequadamente irritante e desconcentrante) da minha mãe sussurrar enquanto dava as indicações e de gritar quando eu não as ouvia, nos traz à crise do retorno:
“Mãe, pego essa entrada?”
“Não, acho que é mais pra frente... [Passando por uma placa da próxima cidade] Não, acho que aquela era a entrada... Acho que a gente já passou a entrada...”
Pois então, passamos direto pela entrada.
“Pega o primeiro retorno que você encontrar”
Okay, atenta por uma placa laranja de retorno!
Outro pequeno adendo... Sinalização de retorno em cima de uma curva não é algo muito visível.
Eu dou de cara com o retorno, entro nele rapidamente diminuindo a marcha numa curva sem deixar o carro morrer ou correr para trás – U-A-U, reflexos dignos do Bruce Willis, em minha opinião – mas dou de cara² com o semblante estou-gritando-por-dentro-mas-rindo-de-nervosa da minha mãe pelo retrovisor.
Aí ela já ficou ansiosa, usou aquele timbre soprano-que-está-gritando-com-você-num-momento-errado, eu volto para a BR enganada, tenho de retornar para o outro retorno de novo...
Ahhhh!
[Bem-vindos à Criciúma]
Muito bem, estamos vivos e estamos no perímetro urbano da cidade onde deveríamos estar. Agora o pesadelo de encontrar o trabalho do meu pai.
Little question: Se das duas ou três vezes que entramos pelo lugar certo da cidade não o encontramos, quais as chances de encontrar o caminho depois de ter entrado pelo lugar errado?
Aparentemente todas: minha mãe reconhece o cafundó no qual nos embrenhamos e enxerga uma placa minúscula que indica o lugar.
Estrada de chão (obviamente minha mãe reclama da velocidade – e se vocês querem mesmo saber eu estava a 30 km/h em 2ª marcha!) e eu morrendo de medo de atropelar algum nos integrantes de uma pequena procissão de sexta-feira santa que seguia no lado contrário da via, vindo em nossa direção.
Ninguém saiu ferido e eu ainda estacionei o carro perto de um laguinho sem deixar que ele caísse no laguinho.
Ufa!
Tudo bem, não nego minha parcela de culpa por não ter entendido que a segunda placa de retorno era a continuação do retorno que eu queria pegar desde o começo!
Ainda sim, duas coisas me consolam:
1° Essa foi mais uma experiência (e sim, uma experiência positiva) para cortar o argumento da minha mãe sobre a minha falta de prática;
2° Ela também teria se perdido se estivesse dirigindo...
Touché

Quero ir-me embora pra estrela
Que vi luzindo no céu
Na várzea do setestrelo.
Sairei de casa à tarde
Na hora crepuscular
Em minha rua deserta
Nem uma janela aberta
Ninguém para me espiar
De vivo verei apenas
Duas mulheres serenas
Me acenando devagar.
Será meu corpo sozinho
Que há de me acompanhar
Que a alma estará vagando
Entre os amigos, num bar.
Ninguém ficará chorando
[...]
Irei embora sozinho
Sem angústia nem pesar
Antes contente da vida
Que não pedi, tão sofrida
Mas não perdi por ganhar.
Verei a cidade morta
Ir ficando para trás
E em frente se abrirem campos
Em flores e pirilampos
Como a miragem de tantos
Que tremeluzem no alto.
Num ponto qualquer da treva
Um vento me envolverá
Sentirei a voz molhada
Da noite que vem do mar
Chegar-me-ão falas tristes
Como a querer me entristar
Mas não serei mais lembrança
Nada me surpreenderá:
Passarei lúcido e frio
Compreensivo e singular
Como um cadáver num rio
E quando, de algum lugar
Chegar-me o apelo vazio
De uma mulher a chorar
Só então me voltarei
Mas nem adeus lhe darei
No oco raio estelar
Libertado subirei
A Partida - Vinícius de Moraes
Dias frios fazem com que eu me sinta mais viva.
Mais atenta a cada pedaço de pele aquecida. Do calor que sobe pelos pés sem meias, sob o cobertor pesado e macio.
Das bochechas avermelhadas pelo ar enregelado.
Torno-me cônscia de cada respiração. Por certo graças a coriza constante que resiste ao lenço – mas quem se importa?
Cônscia do meu peito que sobe e desce, interrompido vez ou outra por tosses profundas que reverberam em meus pulmões. E daí? Respiro ainda! Ouço meu inalar e vejo diante de meu rosto o ar que sai de mim, esfriando-se.
Num compasso ofegante e trêmulo ao caminhar aceleradamente, ouvindo o som de meus passos pisando as lajotas lustrosas e úmidas do caminho.
Gosto da luz azulada do céu nublado, das nuvens que descem embranquecendo a visão das janelas.
Lembro de Sherlock Holmes, de mistérios em docas e becos silenciosos, das ruas desertas de Londres guardadas por postes que envelhecem o tempo. Da densidade do cinza escuro e da perspicácia da mente humana.
Lembro de Heathcliff, do ardor da paixão fustigado por golpes de vento gelado, do som metálico do piano que atravessa frestas de janelas e portas para unir-se aos penetrantes uivos de Wuthering Heights.
Minha mente fervilha de pensamentos, chega a latejar, impedindo-me de dormir.
Entretanto, cada vez que tento por pra fora estes issos que me preenchem, minha boca cala, meus olhos cegam e minhas mãos repousam.
Meus pés param, imobilizados com a possibilidade de meus esforços serem vãos, vazios, frente a todo um resto que nunca chega a se manifestar.
As palavras voltam sem ter ido, formando círculos nos quais frequentemente me engasgo.
Cada qual daquilo sobre o que tenho a dizer perde o sentido diante de tudo o mais que penso que poderia estar dizendo. Pior, que poderia estar pensando em dizer.
E ainda questionam minhas piadas sem graça! O que consegue sair deste turbilhão só pode ser infame mesmo!
De médico, poeta e louco, dizem que todos têm um pouco.
Tenho certeza de que excedi minha dose.
“Como você se sente hoje?”
Eu poderia responder que me sinto um dia mais próxima da decrepitude, cuja sombra angustiante lança seu vazio sobre mim enquanto prossigo em passo insignificante por um caminho desnorteado.
Ou talvez, que me sinta radiante, iluminada pela luz atraente de um futuro pleno de possibilidades que me faz voar em imaginação.
Mas, na realidade, sinto-me a mesma de sempre, que muda a cada instante e que sabe aproveitar cada um de seus fugazes momentos de melancolia ou felicidade.
Here’s the thing! Estou a um tempo querendo escrever algo sobre música e parece que nunca consigo compor frases que expressem adequadamente o que sinto quanto a ela.
Este é um tema que me sugere uma vivacidade de espírito, uma espontaneidade e sensibilidade aos quais, ultimamente, não tenho feito jus...
Então, vou esforçar-me para recuperar um antigo encantamento, esboçar paisagens de tom e cor para redescobrir intimamente seus efeitos na minha própria pele.
Há uma frase de Artur da Távola da qual eu gosto muito: “Música é vida interior. E quem tem vida interior jamais padecerá de solidão.” C’est ça! Preencher os dias (não confundam com mero entulhar!) com algo que complete a você mesmo, que inspire! Que seja como a própria respiração, daquelas de doer os pulmões, tão profundamente a sentimos!
Música não pode ser apenas ouvida, deve ser sentida, vivenciada!
Isadora Duncan, certa vez disse: "Dançar é sentir, sentir, sentir é sofrer, sofrer é amar... Tu amas, sofres e sentes. Dança!".
Dançar para expressar o arrebatamento de momentos intensos e exultantes... Cantar porque se sente feliz ou cantar para transformar lágrimas e dor em voz.
Quantas vezes minha vassoura foi uma guitarra ou microfone em potencial! Quantas vezes eu escorreguei de meias pelo assoalho e estourei o som do rádio até o último volume, fazendo de palavras alheias as minhas próprias...
Doce e brando acalanto, rodopios pela casa em plena faxina: Frank Sinatra começa a tocar...