sábado, 5 de março de 2011

Gavetas




Sempre que estou pra começar algo novo, gosto de parar um momento e arrumar minhas gavetas.

Parar por um momento e organizar as coisas. Pôr cada pensamento, projeto, sentimento, no devido lugar. Jogar algumas coisas fora acaba sendo inevitável. Coisas emboloradas como aquele sabonete que a tia Fulana deu pra dar um cheirinho na gaveta (e agora já empestou o armário todo); coisas que você já tinha esquecido que estavam lá, como o par de meias furadas de lã que você não usa a uns dois invernos; ou até mesmo coisas das quais você não queria se desfazer, mas que não servem mais, estão muito gastas e você no fundo sabe que não pode mais depender delas.

Acredito que todo mundo tenha um hábito parecido, não importa se o chame de introspecção, meditação ou reflexão. Eu arrumo gavetas. Dependendo da intensidade dessa novidade que me impulsiona à ação, às vezes acabo tendo que arrumar as prateleiras, os cabides, o armário todo e, se acabo tirando os livros da estante pra reorganizar, então você pode suspeitar que tenha algo me incomodando muito mesmo.

O importante é revirar tudo. Remexer bem. Espalhar tudo pela escrivaninha, pela cama, pelo chão. Até cansar. Suar. E no final, olhar com orgulho e tranquilidade tudo limpo, perfeito, redondo.

Até o dia seguinte. Aí você vai escolher a roupa com que vai sair de casa e bagunça tudo de novo.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

No meio da noite

No meio desta noite, um choro convulso liberado pelas palavras de Adélia Prado

Acordei meu bem pra lhe contar meu sonho:
sem apoio de mesa ou jarro eram
as buganvílias brancas destacadas de um escuro.
Não fosforesciam, nem cheiravam, nem eram alvas.
Eram brancas no ramo, brancas de leite grosso.
No quarto escuro, a única visível coisa, o próprio ato de ver.
Como se sente o gosto da comida eu senti o que falavam:
"A ressurreição já está sendo urdida, os tubérculos
da alegria estão inchando úmidos, vão brotar sinos”.
Doía como um prazer
Vendo que eu não mentia ele falou:
as mulheres são complicadas. Homem é tão singelo.
Eu sou singelo. Fica singela também.
Respondi que queria ser singela e na mesma hora,
singela, singela, comecei a repetir singela.
A palavra destacou-se novíssima
como as buganvílias do sonho. Me atropelou.
— O que que foi? — ele disse.
— As buganvílias...
Como nenhum de nós podia ir mais além,
solucei alto e fui chorando, chorando,
até ficar singela e dormir de novo.

Adélia Prado

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Passei toda a noite


Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

Alberto Caeiro . O pastor amoroso
Fernando Pessoa

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Em um instante se lembrou de todos os beijos que dera sob a chuva.
E o vazio começou a encher-se d'água.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Little poem


Teu cheiro me pega desprevenida
Em tédio e ócio
Com a face virada pro nada
Encarando teus olhos
Estáticos
Em conforto
Em cansaço
Em tédio e ócio

sábado, 6 de novembro de 2010

"La fille danse
Quand elle joue avec moi
Et je pense que je l'aime des fois
Le silence, n'ose pas dis-donc
Quand on est ensemble
Mettre les mots
Sur la petite dodo"

D. R.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Tristeza


O que acontece quando uma pessoa nasce para estar só?
Minutos longos cercados de vazio e preenchidos em cada segundo possível.
Acontece um mundo cheio de passos sem a promessa da espera.
Vai passar... Vai passar...
Mas o que está nunca passa. Está.