quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

No meio da noite

No meio desta noite, um choro convulso liberado pelas palavras de Adélia Prado

Acordei meu bem pra lhe contar meu sonho:
sem apoio de mesa ou jarro eram
as buganvílias brancas destacadas de um escuro.
Não fosforesciam, nem cheiravam, nem eram alvas.
Eram brancas no ramo, brancas de leite grosso.
No quarto escuro, a única visível coisa, o próprio ato de ver.
Como se sente o gosto da comida eu senti o que falavam:
"A ressurreição já está sendo urdida, os tubérculos
da alegria estão inchando úmidos, vão brotar sinos”.
Doía como um prazer
Vendo que eu não mentia ele falou:
as mulheres são complicadas. Homem é tão singelo.
Eu sou singelo. Fica singela também.
Respondi que queria ser singela e na mesma hora,
singela, singela, comecei a repetir singela.
A palavra destacou-se novíssima
como as buganvílias do sonho. Me atropelou.
— O que que foi? — ele disse.
— As buganvílias...
Como nenhum de nós podia ir mais além,
solucei alto e fui chorando, chorando,
até ficar singela e dormir de novo.

Adélia Prado

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Passei toda a noite


Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

Alberto Caeiro . O pastor amoroso
Fernando Pessoa

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Em um instante se lembrou de todos os beijos que dera sob a chuva.
E o vazio começou a encher-se d'água.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Little poem


Teu cheiro me pega desprevenida
Em tédio e ócio
Com a face virada pro nada
Encarando teus olhos
Estáticos
Em conforto
Em cansaço
Em tédio e ócio

sábado, 6 de novembro de 2010

"La fille danse
Quand elle joue avec moi
Et je pense que je l'aime des fois
Le silence, n'ose pas dis-donc
Quand on est ensemble
Mettre les mots
Sur la petite dodo"

D. R.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Tristeza


O que acontece quando uma pessoa nasce para estar só?
Minutos longos cercados de vazio e preenchidos em cada segundo possível.
Acontece um mundo cheio de passos sem a promessa da espera.
Vai passar... Vai passar...
Mas o que está nunca passa. Está.

sábado, 7 de agosto de 2010

Exercício de escrita


A idéia que formei sobre a criatividade e sobre o processo criativo propriamente dito sempre me pareceu tão convincente que nunca tive grandes crises quanto às minhas pretensões literárias.
Escrevo porque e quando sinto que isso me será agradável, por quaisquer que sejam as razões. Mas, principalmente, escrevo quando sinto vontade (quase necessidade); pois quando há vontade de criar algo tudo pode se tornar interessante o bastante para se refletir, elaborar e escrever.
Geralmente esse anseio vem quando estou ou muito introspectiva ou muito atenta ao mundo exterior, ou ainda quando estou introspectiva E atenta ao mundo aqui fora de mim – uma raríssima conjunção de estados mentais, eu confesso...
Em todos os outros instantes, por mais que eu veja, ouça ou pense em algo super instigante, se não estou num writing-state não adianta, empaca, não consigo!, fica grotesco, indecifrável.
Entendam, não é só o tema, o porquê, o para quê; é o gosto e o gozo pelas palavras que vão vindo quase miticamente e aparecendo diante dos seus olhos, corpos belos, precisos para aquilo que você quer dizer do jeito que você quer dizer!
Você pode dizer que, no fundo no fundo eu só sou uma preguiçosa mesmo, uma acomodada que não se dá ao trabalho de buscar inspiração, entretanto não creio que isso seja um ponto relevante, afinal as minhas ditas pretensões não almejam nenhum reconhecimento além de uma esfera íntima, na maioria das vezes nem chegando a cruzar a fronteira Universo.Isapandora/Everything.Else.
Enfim, qual o sentido em me entediar forçando palavras que, para mim, apenas devem ser pelo prazer em ser?
Obviamente esse post começou como um desempacante qualquer para um blog esquecido dos deuses! Mas ainda assim feels great!, pegar no ar coisas sem nada com nada, e ver no que dá...