sábado, 3 de agosto de 2013



Eu cortei o cabelo. Pintei as unhas de vermelho. Pus a bota de salto que nem sabia que ainda tinha, os brincos que você elogiou um dia e minha saia preta de cintura alta e com bolsos. Pus o avental bem na altura do umbigo, me servi meio copo de vinho. Piquei batatas e cebolas. Coloquei um CD que meu melhor amigo me deu. Dancei diante da pia da cozinha. Tive vontade de chorar. Troquei de CD. Considerei ligar pra alguém. Decidi verificar as batatas no forno. Acabou o azeite de oliva. Também não tem mais azeitonas. Eu deveria sair. Comi em pé na frente do balcão. No final todos morremos sozinhos. Perceber isso pode causar um tremendo vazio, pode nos libertar, ou pode acabar sendo completamente insignificante. Tenho a impressão que isso tem muito a ver com o CD que se decide por pra tocar.

sábado, 11 de maio de 2013

Cena



A maçã vermelha caiu
Rolou pelo meio das pernas de todas as pessoas à direta do ônibus
Morro acima o ônibus, ônibus abaixo a maçã.
O senhor colocou o rosto por baixo do banco e catou a sacola da feira.
A maçã vermelha voltou
Passou de mão em mão por todas as pessoas à direita do ônibus
Vermelha de vergonha – pensei
Sorri.

terça-feira, 2 de abril de 2013

A princesa e a ervilha (na cama Box)



Fazia alguns meses que dormia no chão – bem, não no chão, só no colchão no chão. Sem suporte ou cama. Durante a noite, dormia. Durante o dia, encostava-o entre parede e armário e tinha um vazio à minha disposição. Uma concepção bem zen de arranjo mobiliar.
Mas não somos verdadeiramente zen aqui em casa e como descendo da grande linhagem de matronas conjuradoras da friagem, meu estilo de vida minimalista não durou muito tempo. Compraram-me uma cama.
Uma cama bem alta, mais alta que minha antiga (quando tinha uma), e muito mais alta que a distância do colchão ao chão. Eu sinceramente fiquei preocupada em rolar e cair da cama na primeira noite – acabando com a ingênua pretensão de parecer sensível e bela como a belle au bois dormant ou a princesa da história da ervilha.
Além de todas as crises emocionais fajutas de se comprar uma cama nova logo após o término de um relacionamento, eu fiquei divagando.
Pensei em Virginia Wolf, na mulher que quer escrever e que precisa de um quarto só seu. Olhei pra minha nova (e alta) cama, só minha. Mas espaçosa e propícia pra saudade.
[Não, isso já é tolice minha, pois todo e qualquer lugar é propício para a saudade.]
No fundo são todas metáforas espaciais para a necessidade de se achar um lugar seguro para aquilo que é seu, e seu apenas – mesmo que este lugar seja entre a parede e o armário ou no vazio do quarto sem cama. Para quem se é – no chão ou na cama Box.
Só que é sempre difícil achar um lugar seu, mesmo na própria cama, se ficamos presos ao modo como nos olham ou olhavam enquanto dormíamos.
Para mim, isso significa parar de procurar ervilhas e lembranças entre as dobras do colchão. Este ainda sem marcas, inclusive minhas. As únicas de que precisa (e preciso) no momento.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Pra recuperar a poesia



que pode ser feita de tudo, mas que anda calada e tímida
do tanto que venho sentindo.
Foi o Thomas da metafísica quem me disse
Só consegue escrever quem não sente tão intensamente
Tenho sentido falta e plenitude
Tristeza de cansaço
Felicidade de embriagado
Medo nem sei se está aí no meio.
Quero voltar aos tons e sons (minhas metáforas mais batidas)
Quero até rimas, que sempre fiz pobres
Quero escrever, recuperar a poesia
Reavivar o fogo pra não morrer seca
Pra não morrer já
Pra falar mais um pouco
Sobre cores e palavras (meus temas mais sofridos)
E sobre o que sou e sinto -
alas! Os verbos de ligação em língua estrangeira!
Pra aprender a sentir a vida comme il faut
Intensidade não exposta, não contida.
Só o necessário pra poesia:
o pulsar

domingo, 18 de setembro de 2011

Poema a quatro mãos


O futuro bateu na porta do meu coração
Você me diz para não o deixar entrar
Que ele não me merece
Que ele não existe
Mas se só existe a minha imaginação louca
Que desvirtua o mundo
E que me projeta sempre pra onde não estou
Que crie então personagens, você diz
Esquizofrênicos
Para além de mim
Que pertençam a esses mundos que teço
E o meu eu, clinicamente são
De âmago verdadeiro e inexpugnável
Que se dispense de tudo
E que te ame hoje
E só hoje
Porque senão, vira desespero
E ambos sabemos que somente aos soluços é que se dorme aí

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Ces russes sont fous...


Há alguns anos, B perguntou-me:
“Qual o romance russo da vez? Onde estão os lenços e chocolates?”
Sim, sim. Nem eu mesma me aguentava na época; drama demais até para uma personagem de Wagner. Virou referência obscura da nossa amizade.
Escrevo este texto para você, B. Quero dizer-lhe que achei o romance russo perfeito. Por certo que não é romance, é conto. Mas é mais russo do que vodka! (Que, aliás, suspeita-se até hoje ser uma invenção polonesa...).
Esses russos loucos, por isso os compreendo.
Não precisei de lenços. Chocolates iriam bem.

Imagem de Anna Kostenko

sábado, 2 de julho de 2011

Desculpem-me



Este é mais um poema triste.
Só na solidão mais absoluta
[que sinto na tristeza]
É que consigo escrever.
Só escrevo sobre decepção,
desculpem-me.
Só escrevo sobre chuva e frio.
E vazio.
A vida é suave assim, mesmo triste.
Sinto-me dona do que sinto.
Eu sei. Ao menos suponho.
Estamos como que na estaca zero.
Sei que é bonito ser alegre.
E não sei se precisaríamos ou deveríamos começar tudo de novo.
Perdão, mas palavras alegres não se formam nos meus lábios.
Não agora.
Não quando escrevo.
Se se formassem, eu perderia a alegria.
Estou confusa.
E sei que repetitiva, e chata, desculpem-me.
Desculpem-me.
Mas estou triste.
E não é culpa da chuva.
Nem do frio.
Nem do vazio, talvez.
Talvez a tristeza goste de mim.
E por vezes aprecio sua companhia.